Ingrid Freydis Skogaard
- 1 de jul.
- 6 min de leitura

Ingrid Freydis Skogaard não é o tipo de pessoa que você encontra por acaso e se encontrar, não esquece. Cantora especializada em kulning, professora de canto remoto e, nas próprias palavras dela, "nômade profissional nas horas vagas, não sei se isso entra no LinkedIn, mas deveria." Ela tem 32 anos, uma voz que para o tempo e uma honestidade que desarmaria qualquer sala. Sentamos pra conversar sobre tudo: rotina, raízes, silêncio e o que acontece quando alguém que passou a vida fugindo decide, finalmente, parar.
A mulher por trás da voz
Quando pedimos pra Ingrid se apresentar como faria pra alguém que nunca ouviu falar dela, ela riu antes de responder. "Difícil. Geralmente eu nem ia querer me apresentar." Mas então veio, com a franqueza que marcaria toda a nossa conversa: ela é alguém que passou muito tempo fugindo de lugares, de pessoas, de versões de si mesma, até perceber que talvez não precisasse mais disso.
No dia a dia, canta, viaja demais, não tem medo de falar o que pensa e admite, com certa diversão, uma tendência preocupante de transformar qualquer situação num belo caos. Quem a vê de fora espera encontrar alguém agressiva, sempre no limite, mas a surpresa costuma ser a mesma: ela ama silêncio. Prefere calmaria. Gosta de uma vida mais lenta.
Só viro um problema quando tentam me controlar.
Três palavras pra definir o estilo de vida? Ela não hesitou: nômade, intenso, livre. Nessa ordem.
Minha melhor versão aparece quando sinto que não preciso me defender do mundo o tempo inteiro.

Um dia que não conhece o "comum"
Ingrid acorda antes do sol. Sempre. Hoje, com o chá de pêssego ocupando o lugar do café, uma concessão recente que ela descreve como "uma experiência espiritual complicada", o silêncio da manhã ainda é o mesmo ritual de sempre. É nesse horário que o cérebro funciona melhor, ela explica. Antes que o mundo acorde e comece a exigir.
O trabalho é remoto, com música. Há aulas de canto, sessões de composição, e, quando tem espaço físico pra isso, treino com arco e flecha. A organização existe, ela insiste nisso, mas convive com o caos de um jeito que parece quase intencional. E ultimamente, ela admite, boa parte da energia vai pra uma tarefa nova: tentar não vomitar por causa de cheiros que, até outro dia, eram completamente normais.
É que Ingrid está grávida. Ela conta isso com a mesma franqueza desconcertante de tudo o que diz — sem drama, sem cerimônia, com um humor que desativa qualquer expectativa de reação. "Existe um pequeno ser humano clandestino ocupando espaço dentro do meu corpo enquanto eu tento fingir que tá tudo bem. É… é isso mesmo. Me lasquei." E ri. Genuinamente. Dylan, seu companheiro, e uma quantidade alarmante de picles completam o cenário.
E ela canta. Sempre. Mesmo quando não percebe que está fazendo isso.
Minha voz sempre foi a forma mais honesta que encontrei de existir no mundo sem me sentir julgada o tempo inteiro.
À noite, o ritual muda de textura: velas, incenso, chuva batendo na janela quando tem sorte. As runas e o tarot chegam às mãos "como metal atraído por ímã" a espiritualidade não é performática, é simplesmente parte de quem ela é.
Na bolsa? Isqueiro, uma faca e balas de canela. Na mesa de trabalho, incensos, pedras e plantas. E no carro, detalhe que merece destaque, um machado viking que ganhou do irmão gêmeo, Leif, quando completou dezoito anos. Cada coisa no seu lugar.

O que transforma uma casa em um lar
Pra quem passou tanto tempo em movimento, a definição de lar de Ingrid é surpreendentemente sensorial. Silêncio confortável. Cheiro de ylang-ylang. Música ecoando em algum cômodo. E, acima de tudo, a sensação de que ninguém ali quer te transformar em alguém menor do que você é.
O momento favorito do dia? Entre o fim da madrugada e o nascer do sol quando o mundo ainda parece meio vazio e a luz começa a aparecer devagar. "Existe uma paz estranha nesse horário", ela diz. E claramente adora isso.
Sobre autocuidado, Ingrid é a primeira a admitir que não é uma pessoa emocionalmente organizada. Mas está aprendendo. Comer melhor, desacelerar, aceitar que o corpo não é uma máquina de guerra o tempo inteiro. E um hábito que, segundo ela, mudou tudo nos últimos anos:
Aprendi a ir embora de lugares que me machucavam. Parece simples, mas não é. Às vezes sobreviver vira costume e você esquece que também merece paz.
Quando precisa recarregar, vai pra natureza. Sempre. Água gelada, árvores, montanhas, qualquer lugar onde seja possível ouvir vento em vez de gente. "Acho que algumas partes minhas ainda pertencem ao norte da Europa e nunca vão deixar de pertencer."
Vikings mortos e música melancólica
Ingrid cresceu cercada de sagas nórdicas. Metade da personalidade dela, brinca, foi formada por vikings mortos e melodias melancólicas e não parece exagero. A ancestralidade está em tudo: na forma de cantar, na conexão com a natureza, na atração por lugares vastos e silenciosos.
O que a inspira hoje? Mulheres que sobreviveram sem perder a própria essência. Artistas que transformam dor em algo bonito. E pessoas que conseguem amar sem tentar possuir. "Acho isso raro", ela diz, e no tom dela, é quase um elogio máximo.
Existe um conselho que ela nunca esqueceu. Alguém disse uma vez, e ficou:
Não deixe ninguém convencer você de que precisa diminuir quem é para ser amada.
Ela demorou muito pra entender isso. Hoje carrega como bússola.

O norte que nunca larga
A Islândia ocupa um lugar especial na memória de Ingrid. Ela passou um ano lá e ainda sente saudade de uma forma que é difícil de explicar. "Existe algo naquele lugar que parece antigo demais pra ser explicado. Como se a terra ainda estivesse viva embaixo dos teus pés." É esse tipo de experiência que ela busca quando viaja: a sensação de que o lugar tem memória própria.
Os destinos que a atraem têm algo em comum são vastos, frios e silenciosos. Praia não é prioridade. Cidades enormes, muito menos. O que ela quer, quando pode escolher, é montanha e floresta. Qualquer lugar onde caiba desbravar e se sentir livre.
E o lugar ao qual sempre deseja voltar? Simples: o norte. Não importa quantos países conheça.
"Alguma parte minha sempre vai querer voltar pra lá."
Mas quando perguntamos o que ela quer aprender nos próximos anos, a resposta veio em duas partes. A primeira: como permanecer que pra alguém que passou a vida inteira pronta pra fugir, já é muita coisa. A segunda chegou com um riso e uma sinceridade que resume tudo o que ela é:
Também quero aprender mais sobre maternidade sem enlouquecer completamente no processo. O que, honestamente, já parece uma missão impossível pra caralho.
As respostas rápidas que dizem tudo
Pedimos pra ela completar algumas frases. O que veio foi exatamente o que esperávamos e mais um pouco.
Um café perfeito é... Felicidade, pra mim, é... Não vivo sem... Um pequeno luxo que adoro... Minha estação favorita... Um lugar que me traz paz... Algo que quero fazer mais vezes... | Forte, quente, tomado cedo demais enquanto o resto do mundo ainda dorme. Paz sem precisar merecer ela o tempo inteiro. Música. E aparentemente picles agora. Trágico. Lençóis limpos em noite fria e chuva batendo na janela. Verão. Qualquer lugar onde eu consiga ouvir vento passando pelas árvores. Ficar. Só isso já seria novidade suficiente. Pra fechar |
O que ela deixaria pra quem está lendo
Perto do final da nossa conversa, pedimos pra Ingrid deixar uma mensagem pra quem acompanha a revista. Ela não suavizou. Não arredondou as arestas. Veio do jeito que ela é, direta, crua e, no fundo, muito mais amorosa do que parece à primeira vista.
Ela falou sobre como o mundo tenta moldar as pessoas o tempo inteiro. Como tentam dizer quem você deve amar, como deve agir, quanto espaço pode ocupar, quão silenciosa precisa ser pra caber nas expectativas dos outros. E como, se você passa tempo demais tentando agradar todo mundo, acorda um dia sem reconhecer a própria vida.
Não existe liberdade em viver uma vida que não parece tua. Não peça desculpas por existir de forma inteira.
O restante da mensagem ela deu do jeito dela com palavrão incluído, com o humor que não abandona nem nos momentos sérios, e com uma leveza que só quem já passou por muita coisa consegue ter. O mundo vai tentar te moldar o tempo inteiro. Vão tentar dizer quem você deve amar, como deve agir, quanto espaço pode ocupar, quão silenciosa precisa ser pra caber nas expectativas dos outros. E se você passa tempo demais tentando agradar todo mundo… uma hora acorda sem reconhecer a própria vida.
Não peça desculpas por existir de forma inteira. Mete o foda-se e vai viver. Você provavelmente nem vai lembrar da metade das pessoas que te criticam daqui cinco anos. Então… foda-se. Mesmo que isso assuste algumas pessoas.
Ingrid ainda está aprendendo a ficar. Mas pela primeira vez, parece que ela quer tentar.

ENTRE NÓS - A VIDA EM DETALHES é a coluna de Lifestyle do The Ones Edit onde conversamos com mulheres reais sobre como elas constroem, escolhem e habitam a própria vida. Sem respostas prontas, sem perfeição fabricadas, só histórias que parecem verdadeiras porque são.




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