Athala Lenz Böhm
- 8 de mai.
- 4 min de leitura

Existe um momento em que a maternidade deixa de parecer apenas uma ideia bonita e se transforma em algo real, intenso e irreversível.
Para Athala Lenz Böhm, esse momento não veio acompanhado de medo, mas sim como certeza.
“Ath, pra quem é mais próximo”, como ela mesma se apresenta, tem 21 anos, nasceu em Berlim e hoje vive na Cidade do México, onde divide a rotina entre a universidade, uma galeria/café e, principalmente, a maternidade da pequena Angel.
Criada pela avó depois de perder os pais ainda muito nova, Athala cresceu entendendo cedo o significado de amor, cuidado e construção de família. Talvez por isso, quando fala sobre maternidade, não exista romanização exagerada e sim intenção.
E essa é justamente a palavra que define a forma como ela vive essa fase.
“Se eu fosse definir a minha maternidade em uma palavra, seria: intencional.”

Angel nasceu em setembro de 2024, algumas semanas antes do previsto. Embora Athala tivesse escolhido uma cesárea, o parto quase aconteceu de forma natural.
Ela lembra da gravidez com carinho. Gostava de observar as mudanças do corpo, da barriga crescendo lentamente, da sensação de finalmente viver algo que desejava há muito tempo. Os enjoos não foram o mais difícil. O que realmente a atravessou foram os hormônios.
“Eu sentia tudo à flor da pele. Ia de zero a cem muito rápido.”
Mesmo com o apoio constante de Brandon ou Brand, como ela o chama, havia dias em que a tristeza simplesmente aparecia sem motivo específico. E foi nesse período que ela percebeu que gestar também significa lidar com versões desconhecidas de si mesma.
Ainda assim, ela descreve a experiência com uma calma surpreendente.
“Eu nunca enxerguei como algo simples. Mas eu estava pronta para todas as mudanças.”
Ao longo da conversa, fica impossível não perceber o quanto a presença de Brandon molda a forma como ela vive a maternidade.
Os dois planejavam a chegada da filha desde o começo do relacionamento. Existia diálogo, acordos e, principalmente, parceria.
Athala fala sobre isso com firmeza:
“A escolha do pai é muito importante.”

Ela lembra do parto como um divisor de águas emocional. Enquanto todos queriam conhecer a bebê, Brandon foi a única pessoa que parou para perguntar como ela estava.
Foi ali que ela entendeu, mais uma vez, que não estava sozinha.
Nos primeiros meses da Angel, eles criaram uma dinâmica própria: durante o dia, Ath cuidava da bebê e durante a noite, era a vez dele. Mesmo com cólicas, noites mal dormidas e o caos típico do início da maternidade, ela descreve o pós-parto como leve.
“Ele queria ser pai de verdade. Não só ter um filho.”
Hoje, os dois ainda mantêm o acordo que fizeram antes da Angel nascer: não deixar de ser um casal para serem apenas pais.
Mesmo com o caos de mamadeiras, brinquedos espalhados pela casa e uma bebê que só dorme agarrada na mãe, eles continuam encontrando espaço para si.
E é justamente nesses pequenos momentos que moram as memórias favoritas dela.
Uma delas aconteceu em um chalé.
“Nós dançamos na cozinha. Até hoje, essa é a minha memória favorita.”
Apesar da leveza com que fala sobre a maternidade, Athala também compartilha as partes difíceis, aquelas que quase sempre ficam escondidas atrás de fotos bonitas.
Angel tinha apenas três meses quando ficou resfriada pela primeira vez. Foi também nesse momento que descobriram a asma.
Athala chorou.
Muito.
Sentiu culpa, medo e a sensação de estar falhando como mãe.
“Na minha cabeça, a culpa era minha.”
Ela conta que Brandon precisou lidar com as duas chorando ao mesmo tempo: a bebê e ela.
E, desde então, existe um pensamento que insiste em voltar sempre que algo acontece com Angel.
“O que eu estou fazendo de errado?”
Recentemente, bastaram alguns segundos de distração para a pequena machucar o braço e aquilo também a abalou profundamente.
Existe algo muito honesto na forma como Athala fala sobre culpa materna. Não existe tentativa de parecer perfeita. Existe apenas vulnerabilidade.
Porque, no fim, amar alguém tão intensamente também significa carregar o medo constante de não conseguir protegê-lo de tudo.

Athala ri quando fala sobre a filha ser “arteira”.
Ela diz que ter um bebê de quase dois anos é basicamente aprender, na prática, como manter um mini humano vivo.
“E, de preferência, sem hematomas.”
Angel é carinhosa, grudada, intensa. Vive atrás da mãe pela casa chamando “mamã”, abraça do nada e insiste em dormir juntinho dela todas as noites.
Com o pai, é birrenta.
Com a mãe, um dengo ambulante.
“São duas versões completamente diferentes da mesma criança.”
Mas talvez uma das partes mais interessantes da entrevista seja quando Athala fala sobre identidade.
Ela admite que, no começo, foi difícil separar a Athala mãe da Athala mulher.
Antes da maternidade, ela era impulsiva. Viajava sem pensar duas vezes. Fugir emocionalmente fazia parte da forma como lidava com os próprios sentimentos.
“Teve uma vez que passei uma semana viajando pela Europa só porque estava com raiva dele.”
Hoje, ela sabe que não pode mais agir assim.
Não porque deixou de ser quem era, mas porque agora existe alguém pequeno dependendo dela para tudo.
E essa consciência mudou completamente a forma como ela vive.
Ao final da conversa, Athala define essa fase da vida como intensa, transformadora e cheia de amor.
Ela ainda está se descobrindo.
Ainda está aprendendo a equilibrar todas as versões de si mesma: mulher, artista, estudante, parceira e mãe.
Mas existe uma certeza muito clara em tudo o que ela diz.
“Eu já sei exatamente por quem eu existo todos os dias.”

E talvez seja isso que faça a maternidade dela parecer tão bonita de ler: não é perfeita, não tenta ser perfeita e nem quer parecer inalcançável.
É real.
Cheia de culpa às vezes. Cheia de cansaço em outras. Mas, acima de tudo, cheia de amor.
E no universo delicado, intenso e completamente humano de Athala Lenz Böhm, isso basta.
RAW MOTHERHOOD é uma coluna do The Ones Edit dedicada a histórias reais sobre maternidade, sem filtros e sem romanização. Mulheres, rotinas, medos, amor, caos e beleza coexistindo no mesmo espaço, exatamente como a vida acontece.




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